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Conheça a cidade onde o térreo pode estar no 15º andar

Península de Yuzhong, em Chongqing

Imagine entrar em um prédio pelo térreo, subir até o 15º andar e encontrar outra rua do lado de fora. Em Chongqing, na China, o relevo montanhoso criou uma cidade onde prédios, ruas e sistemas de transporte se conectam em diferentes níveis — às vezes de maneiras que parecem desafiar a lógica.

Chongqing: uma metrópole construída em terreno montanhoso

Para entender por que Chongqing possui uma arquitetura tão incomum, é preciso começar pelo terreno. A cidade se desenvolveu em uma região marcada por montanhas, vales e grandes diferenças de altitude, além da presença dos rios Yangtzé e Jialing.

Diferentemente de uma cidade construída sobre uma grande planície, Chongqing precisou crescer acompanhando os desníveis naturais do terreno. Isso significa que bairros, ruas e edifícios podem ocupar alturas muito diferentes mesmo quando estão relativamente próximos uns dos outros.

Essa característica é tão importante que um estudo sobre Chongqing argumenta que a verticalidade da cidade não vem apenas de seus prédios altos. O próprio terreno é vertical, e a cidade foi construída incorporando essa geografia à sua arquitetura e infraestrutura.

É justamente essa combinação que produz algumas das cenas mais peculiares de Chongqing: ruas que encontram edifícios vários andares acima, passarelas entre diferentes níveis da cidade e construções com acessos que desafiam nossa ideia tradicional de onde deveria ficar o térreo.

Rua comercial construída entre os diferentes níveis do relevo montanhoso de Chongqing.
Foto: Kristoffer Trolle, via Wikimedia Commons — CC BY 2.0. Imagem recortada.

Como o térreo pode estar no 15º andar?

Um dos melhores exemplos dessa verticalidade está em Baixiangju, um complexo residencial construído em uma encosta de Chongqing. O conjunto possui seis blocos que alcançam a mesma altura, mas, por acompanharem o relevo, possuem diferentes números de andares em relação às ruas ao redor.

Baixiangju possui acessos em três níveis diferentes: no térreo, no 10º andar e no 15º andar. Isso acontece porque as ruas que cercam o complexo estão em diferentes altitudes. Uma delas passa pela parte mais baixa da encosta, enquanto outra chega diretamente ao nível do 15º andar.

Isso não significa que o 15º andar seja literalmente outro térreo. Na prática, ele funciona como uma entrada no nível da rua para quem chega pela parte mais alta do terreno. Uma pessoa pode entrar no edifício por ali sem precisar subir 15 andares.

O resultado é uma situação que parece contraditória à primeira vista: dependendo do lado pelo qual você chega, a entrada de um mesmo conjunto de edifícios pode estar separada por dezenas de metros de altura. É uma consequência direta de construir sobre um terreno onde a própria cidade sobe e desce junto com as montanhas.

Baixiangju, complexo residencial construído em uma encosta de Chongqing.
Imagem: Yi Jin, via Urban Planning — CC BY 4.0.

Uma cidade onde prédios podem ter várias entradas no “nível da rua”

Baixiangju é um exemplo impressionante, mas está longe de ser um caso isolado. Em Chongqing, é possível encontrar edifícios residenciais com entradas em diferentes andares em áreas de terreno inclinado, permitindo o acesso direto a ruas localizadas em diferentes alturas.

Essa configuração pode até transformar partes dos edifícios em caminhos pela cidade. Segundo o estudo Urban Verticality Shaped by a Vertical Terrain, algumas escadarias internas são utilizadas como atalhos entre ruas situadas em níveis diferentes, mesmo por pessoas que não moram nesses prédios.

Outro exemplo famoso é Hongyadong, um complexo comercial e turístico construído em uma encosta às margens do rio Jialing. O edifício possui 11 andares, mas pode ser acessado tanto pelo primeiro andar, próximo à margem do rio, quanto pelo 11º andar, que se conecta diretamente a uma rua na parte superior da encosta.

Para quem está acostumado a cidades mais planas, essa organização pode parecer confusa. Em Chongqing, porém, o nível da rua depende de qual rua estamos falando.

Hongyadong, complexo construído em uma encosta às margens do rio Jialing.
Foto: 源義信, via Wikimedia Commons — CC BY 4.0.

Ruas, pontes, túneis e elevadores: como se locomover em uma cidade vertical?

Os desníveis de Chongqing não afetam apenas os edifícios. Para conectar áreas separadas por montanhas, vales e rios, a cidade incorporou diferentes soluções de transporte e circulação à sua paisagem urbana.

Além das tradicionais escadarias que acompanham as encostas, Chongqing conta com pontes, túneis, teleféricos, escadas rolantes e elevadores que ajudam moradores a vencer diferenças de altitude que seriam difíceis de superar apenas caminhando.

Em alguns casos, essas estruturas se tornam parte do próprio caminho pela cidade. Um elevador pode conectar ruas situadas em alturas diferentes, enquanto escadarias e caminhos para pedestres acompanham os desníveis do relevo. O estudo sobre a verticalidade de Chongqing destaca justamente essa integração entre infraestrutura de transporte, espaços públicos e terreno montanhoso.

Por isso, a aparência labiríntica de Chongqing não é apenas uma peculiaridade visual. Mover-se pela cidade também significa lidar com sua dimensão vertical, alternando constantemente entre diferentes níveis do terreno.

E tem até um trem passando por dentro de um prédio

Talvez o exemplo mais famoso da verticalidade de Chongqing seja a Estação Liziba, onde os trens da Linha 2 do transporte ferroviário da cidade passam por dentro de um edifício de uso misto.

A estação ocupa parte do prédio entre o 6º e o 8º andar, mas sua relação com o terreno é tão interessante quanto o próprio trem. Quem chega pela margem do rio precisa subir vários níveis para alcançar a estação, enquanto quem vem pela parte mais alta da encosta consegue acessá-la diretamente naquele nível.

A imagem dos trens atravessando o edifício tornou Liziba uma das atrações mais conhecidas de Chongqing, mas a solução não surgiu apenas para chamar atenção. Ela é mais um exemplo de como arquitetura, transporte e relevo precisaram se adaptar uns aos outros em uma cidade com pouco terreno plano.

O caso é tão curioso que já explicamos em detalhes por que existe um prédio em Chongqing onde o trem passa por dentro.

Trem da Linha 2 saindo do edifício que abriga a Estação Liziba, em Chongqing.
Foto: David290, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Se o terreno é tão difícil, por que Chongqing cresceu ali?

À primeira vista, pode parecer estranho que uma metrópole tenha crescido em um terreno tão difícil de ocupar. Mas a localização de Chongqing também trouxe vantagens importantes para o seu desenvolvimento.

A área central da cidade se formou na confluência dos rios Yangtzé e Jialing, dois cursos d’água que tiveram papel importante na circulação de pessoas e mercadorias. Antes da expansão das ferrovias e rodovias modernas, os rios eram especialmente importantes para conectar Chongqing a outras regiões.

Essa localização ajudou Chongqing a se consolidar como um importante centro comercial e industrial do interior da China. Com o crescimento da cidade, porém, a expansão urbana precisou lidar com aquilo que sempre esteve ali: montanhas, encostas e grandes diferenças de altitude.

Em vez de impedir o desenvolvimento de Chongqing, o relevo acabou condicionando a maneira como ela cresceu. A cidade precisou encontrar formas de conectar áreas separadas por obstáculos naturais — e muitas das soluções que hoje parecem extraordinárias são resultado justamente dessa adaptação.

O que parece caos tem uma lógica

Vista de fora, Chongqing pode parecer uma cidade construída sem qualquer preocupação com níveis. Ruas chegam ao meio de edifícios, passarelas conectam construções em diferentes alturas e caminhos que parecem estar no térreo podem estar vários andares acima de outra parte da cidade.

Mas essa aparência quase labiríntica é consequência de uma lógica bastante concreta. A arquitetura e a infraestrutura de Chongqing foram adaptadas a um terreno que já era naturalmente vertical. Em vez de eliminar completamente os desníveis, muitas construções passaram a incorporá-los à forma como se conectam com a cidade.

É isso que conecta lugares aparentemente tão diferentes como Baixiangju, Hongyadong e a Estação Liziba. O relevo montanhoso influenciou a forma dos edifícios, os caminhos usados pelos moradores e até a maneira como diferentes partes da cidade se conectam.

O resultado é uma cidade em que altura não significa necessariamente distância da rua. Uma entrada no 15º andar pode estar diretamente ligada a uma rua porque o terreno do outro lado do edifício está dezenas de metros acima daquele que passa pela parte mais baixa.

É por isso que Chongqing consegue desafiar uma ideia tão básica quanto a de “nível da rua”. Em uma cidade que cresce em várias alturas, saber o endereço pode não ser suficiente — às vezes, também é preciso saber em qual nível da cidade você está.

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