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Por que a comida de Sichuan é tão apimentada?

Hot pot ao estilo Sichuan com caldo apimentado, pimentas vermelhas e acompanhamentos

A comida de Sichuan ficou famosa pelo sabor intenso e pela combinação de ardência e dormência conhecida como málà. Mas há um detalhe curioso: a pimenta chili, hoje tão associada à região, nem sequer é originária da China.

Sichuan nem sempre teve pimenta chili

As pimentas do gênero Capsicum são originárias das Américas e só chegaram à China depois do início das trocas entre o Velho e o Novo Mundo. Os primeiros registros chineses conhecidos aparecem no fim do século XVI, e 1591 é uma das datas mais citadas para a presença da planta em fontes da dinastia Ming. Nesses primeiros registros, ela ainda aparece mais como uma curiosidade ornamental do que como um ingrediente indispensável da cozinha.

Isso significa que, durante a maior parte da história de Sichuan, a chili não fazia parte da culinária regional. A comida local já utilizava condimentos aromáticos e sabores intensos, mas a ardência provocada pela capsaicina simplesmente não fazia parte dela.

A incorporação da chili à alimentação chinesa aconteceu gradualmente. Embora os primeiros registros estejam ligados ao litoral oriental, foram regiões do centro e sudoeste — como Hunan, Guizhou e Sichuan — que acabaram desenvolvendo algumas das tradições mais fortemente associadas ao seu consumo.

Em Sichuan, um dos primeiros registros locais do uso da chili aparece em 1749, e sua presença aumentou durante o século XIX. No fim da dinastia Qing, ela já havia deixado de ser uma novidade estrangeira para se tornar parte importante da culinária regional.

Mas a chegada da chili não encontrou uma cozinha sem tradição de sabores fortes. Sichuan já possuía havia muito tempo outro ingrediente capaz de produzir uma sensação bastante peculiar na boca: o huājiāo, conhecido em português como pimenta-de-Sichuan.

A pimenta-de-Sichuan já estava lá muito antes

Apesar do nome, a pimenta-de-Sichuan não é uma pimenta chili. O huājiāo (花椒) pertence ao gênero Zanthoxylum, enquanto as pimentas chili pertencem ao gênero Capsicum e chegaram à China vindas das Américas.

A diferença não é apenas botânica. As duas produzem sensações distintas na boca. A chili provoca a conhecida ardência, principalmente por causa da capsaicina. Já o huājiāo contém compostos chamados sanshools, responsáveis por uma sensação de formigamento e dormência bastante característica nos lábios e na língua.

O uso de plantas do gênero Zanthoxylum na região é muito mais antigo que o da chili. Evidências arqueológicas, genéticas e linguísticas indicam que espécies desse grupo já eram utilizadas no oeste de Sichuan há milhares de anos, muito antes da chegada das pimentas americanas à Ásia.

Isso ajuda a entender por que a chegada da chili não representou uma ruptura completa com a culinária regional. Sichuan já possuía uma tradição de sabores intensos e aromáticos; o novo ingrediente acrescentou a ardência da chili a uma cozinha que já conhecia bem a sensação de dormência provocada pelo huājiāo.

Frutos de Zanthoxylum bungeanum, espécie conhecida como pimenta-de-Sichuan
Frutos de Zanthoxylum bungeanum, uma das espécies conhecidas como pimenta-de-Sichuan.
Foto: Pascal Vieu, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Como nasceu o sabor málà?

Em chinês, má (麻) descreve a sensação de dormência e formigamento provocada pelo huājiāo, enquanto là (辣) se refere à ardência associada às pimentas chili. Juntas, as duas sensações formam o málà (麻辣), um dos perfis de sabor mais conhecidos da culinária de Sichuan.

O interessante é que essa combinação só pôde surgir depois da chegada da chili à China. O huājiāo já fazia parte da alimentação regional havia séculos, mas produzia uma experiência sensorial diferente. Quando a pimenta americana foi incorporada à cozinha sichuanesa, os dois ingredientes passaram a ser usados juntos, criando um equilíbrio entre ardência, dormência, aroma e sabor.

Hoje, o málà aparece em diferentes preparações da região. O mapo tofu, por exemplo, combina tofu, carne, pasta de feijão fermentado, chili e huājiāo; o hot pot de Sichuan utiliza caldos intensamente condimentados; e os pratos conhecidos como shuǐzhǔ costumam reunir chili, óleo quente e pimenta-de-Sichuan.

Apesar da fama, porém, málà não é sinônimo de toda a culinária de Sichuan. Ele é apenas um dos vários perfis de sabor desenvolvidos na região — embora tenha se tornado, dentro e fora da China, seu perfil de sabor mais reconhecido.

Mapo tofu ao estilo de Sichuan, preparado com tofu e temperos picantes
Mapo tofu ao estilo de Sichuan, um dos pratos mais conhecidos da culinária da região.
Foto: Sichuanfoodlover, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Por que Sichuan adotou tanta pimenta?

A chili não se tornou tão importante em Sichuan por uma única razão. Sua expansão aconteceu durante um período de grandes mudanças demográficas e econômicas, e o novo ingrediente encontrou condições favoráveis para se espalhar.

Um dos fatores mais importantes foi a migração. Entre os séculos XVII e XIX, Sichuan recebeu grandes contingentes de pessoas de outras partes da China durante o processo conhecido como Húguǎng tián Sìchuān (湖广填四川), literalmente “Huguang povoa Sichuan”. Muitos desses migrantes vieram de áreas do atual Hunan e Hubei, onde a chili também estava sendo incorporada à alimentação, ajudando a transportar hábitos culinários para a província.

A pimenta também tinha vantagens bastante práticas. Era barata, produtiva e capaz de acrescentar muito sabor a refeições simples. Por isso, seu consumo se difundiu especialmente entre as camadas populares, até se tornar cada vez mais integrado à cozinha regional.

Além disso, a chili não chegou a um ambiente culinário completamente estranho aos sabores intensos. Sichuan já utilizava huājiāo, gengibre e outros condimentos aromáticos, o que facilitou a incorporação da nova ardência a combinações que já faziam parte da tradição local.

O clima úmido de Sichuan também costuma aparecer nas explicações para esse hábito. Dentro de concepções tradicionais chinesas sobre alimentação e o corpo, comidas picantes são frequentemente associadas à ideia de combater ou eliminar a “umidade”. Isso ajuda a explicar como o consumo é interpretado culturalmente, mas não significa que o clima, sozinho, tenha causado a preferência por pimenta.

A história aponta para uma combinação bem mais ampla: migração, disponibilidade do ingrediente, condições econômicas e tradições culinárias anteriores ajudaram a transformar uma planta estrangeira em uma das marcas mais reconhecíveis da cozinha de Sichuan.

A pimenta virou parte da identidade de Sichuan

Na virada para o século XX, a chili já havia se tornado muito mais do que um ingrediente recém-chegado. O gosto por comida apimentada passou a ser associado à própria identidade regional de Sichuan, ao lado de combinações que mantiveram o huājiāo como ingrediente importante.

Essa associação se tornou tão forte que chili, huājiāo e málà acabaram formando uma espécie de cartão de visitas da culinária sichuanesa. A imagem, porém, simplifica uma tradição regional muito mais diversa.

Nem toda comida de Sichuan é extremamente apimentada

A fama do málà faz com que a culinária de Sichuan seja frequentemente resumida a pratos muito picantes, mas essa imagem não representa toda a tradição regional. A comida de Sichuan reúne uma variedade ampla de combinações de sabores, e nem todas dependem de grandes quantidades de chili.

Um exemplo é o yúxiāng (鱼香), literalmente “aroma de peixe”. Apesar do nome, esse perfil de sabor pode aparecer em pratos sem peixe e combina ingredientes como alho, gengibre, cebolinha, vinagre, açúcar e condimentos fermentados para produzir um resultado ao mesmo tempo salgado, doce, ácido e aromático.

Outro perfil tradicional é o guàiwèi (怪味), ou “sabor estranho”, nome dado justamente à combinação de várias sensações diferentes em um mesmo prato. Dependendo da preparação, podem aparecer elementos salgados, doces, ácidos, picantes, aromáticos e a dormência do huājiāo.

Há também preparações pouco picantes ou mesmo doces, como o bingfen, além de perfis em que a ardência divide espaço com sabores doces, ácidos, salgados e aromáticos. O que caracteriza a culinária regional não é simplesmente a capacidade de colocar o máximo possível de pimenta em cada receita, mas a combinação de diferentes sabores, aromas e texturas.

O málà acabou se tornando sua assinatura mais reconhecível, sobretudo fora da China, mas enxergar Sichuan apenas como “a cozinha apimentada da China” significa ignorar boa parte da diversidade que tornou essa tradição culinária tão influente.

Bingfen com açúcar mascavo, sobremesa fria popular em Sichuan
Bingfen com açúcar mascavo, uma sobremesa fria popular em Sichuan.
Foto: ZhengZhou, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Como Sichuan ficou famosa dentro e fora da China

Ao longo do século XX, a culinária de Sichuan ultrapassou cada vez mais as fronteiras da província. Restaurantes especializados se espalharam por outras cidades chinesas, enquanto pratos como mapo tofu, hot pot e diferentes preparações málà ajudaram a tornar seus sabores reconhecíveis em todo o país.

A expansão da comida de Sichuan também chegou ao exterior. Restaurantes sichuaneses se estabeleceram em diferentes cidades ao redor do mundo, enquanto pratos e ingredientes associados à região se tornaram mais conhecidos fora da China.

A popularidade internacional reforçou principalmente a imagem de Sichuan como uma cozinha marcada pela ardência e pela dormência. Mas ela é apenas uma das muitas tradições regionais que formam a culinária chinesa, moldadas por geografias, ingredientes e histórias diferentes.

Por que, afinal, a comida de Sichuan é tão apimentada?

Não existe uma única explicação. A culinária de Sichuan que conhecemos hoje nasceu do encontro entre uma especiaria usada na região havia milhares de anos e uma pimenta trazida das Américas apenas no fim do século XVI.

Nos séculos seguintes, migrações populacionais, baixo custo, disponibilidade do ingrediente e tradições culinárias anteriores ajudaram a chili a ganhar espaço. Ao lado do huājiāo, ela formou o málà, combinação que acabaria se tornando uma das marcas mais reconhecíveis de Sichuan.

A fama da comida de Sichuan como extremamente picante tem fundamento — mas conta apenas parte da história de uma das cozinhas regionais mais diversas da China.

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