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Por que os chineses bebem água quente? Entenda de onde vem esse costume

Água quente em casa aconchegante

Na China, beber água quente ou morna é um hábito comum no dia a dia e pode parecer estranho para quem vem de fora. A explicação, porém, não está em uma única tradição: o costume atual mistura práticas antigas, saúde pública, infraestrutura e hábitos que se consolidaram principalmente nos últimos dois séculos.

Beber água quente é realmente tão comum na China?

Sim, a preferência por água quente ou morna é bastante comum na China, embora isso não signifique que todos os chineses rejeitem bebidas geladas.

O hábito aparece em diferentes situações do cotidiano. Restaurantes podem servir água quente, muitas pessoas carregam garrafas térmicas e é comum encontrar dispensers de água quente em locais como escritórios, escolas e estações de transporte.

Essa preferência também varia de pessoa para pessoa. Gerações mais jovens, por exemplo, convivem normalmente com refrigerantes, cafés gelados e outras bebidas frias. Ainda assim, a água quente continua ocupando um espaço importante na rotina de muitas famílias, especialmente quando associada a conforto e bem-estar.

O mais curioso é que esse costume, apesar de parecer uma tradição chinesa imutável, nem sempre foi tão disseminado quanto é hoje.

Dispenser de água quente em uma estação ferroviária chinesa, provavelmente em Guilin.
Foto: Cornelius Kibelka, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 2.0.

O costume é milenar?

A relação dos chineses com bebidas quentes é antiga, mas isso não significa que beber água quente pura tenha sido um hábito universal na China durante milhares de anos. Chá, infusões e água aquecida já faziam parte da vida chinesa havia séculos, porém o consumo cotidiano de água fervida variava bastante entre regiões e grupos sociais.

Durante boa parte da história, ferver água exigia combustível — lenha, carvão ou outros materiais — e isso tinha um custo. Para famílias mais pobres, especialmente no campo, gastar combustível apenas para preparar água para beber nem sempre era uma opção viável. Há registros do início do século XX mostrando populações rurais que ainda consumiam água diretamente de poços e rios.

Nas cidades, a situação podia ser diferente. Em lugares como Xangai, chegaram a existir estabelecimentos especializados em vender água já fervida, permitindo que trabalhadores comprassem água quente sem precisar gastar combustível em casa.

Assim, o costume atual tem raízes antigas, mas sua ampla difusão entre diferentes camadas da sociedade é muito mais recente. A grande transformação começou entre o fim do século XIX e o início do XX, quando novas ideias sobre higiene e transmissão de doenças passaram a dar à água fervida uma importância que ia além da tradição.

Quando ferver água virou questão de saúde pública?

A partir do fim do século XIX, a água fervida começou a ganhar uma nova importância na China. Com a disseminação da teoria microbiana das doenças, autoridades e profissionais de saúde passaram a relacionar com mais clareza a qualidade da água à transmissão de enfermidades.

Essa preocupação ganhava força durante surtos de doenças como a cólera. Em Guangzhou, por exemplo, uma grande epidemia em 1932 ampliou o debate sobre higiene e fornecimento de água potável, à medida que a relação entre água contaminada e transmissão da doença se tornava mais evidente.

A prática tinha uma vantagem simples: a fervura inativava bactérias, vírus e protozoários capazes de causar doenças transmitidas pela água. Assim, a água fervida passou gradualmente a ser promovida também como uma medida de higiene e prevenção.

Esse processo começou ainda antes da fundação da República Popular da China, em 1949. O que aconteceu nas décadas seguintes foi uma ampliação muito maior dessas recomendações, levando o hábito para escolas, fábricas, repartições e milhões de residências.

Como o hábito se espalhou pelo país?

Depois de 1949, o incentivo ao consumo de água fervida ganhou uma escala muito maior. Campanhas de saúde pública passaram a reforçar hábitos básicos de higiene, entre eles a recomendação de não beber água diretamente da fonte sem antes fervê-la.

Ao mesmo tempo, escolas, fábricas, repartições e outros espaços coletivos começaram a oferecer água fervida aos trabalhadores e estudantes. Isso tornou a prática mais acessível e ajudou a incorporá-la à rotina diária de milhões de pessoas.

Outro objeto teve papel importante nessa transformação: a garrafa térmica. Conforme sua produção se expandiu e o produto ficou mais barato, tornou-se possível ferver água uma vez e mantê-la quente por várias horas. As garrafas térmicas acabaram se tornando presença comum nas casas chinesas e também em ambientes de trabalho.

Com o passar das décadas, uma prática inicialmente promovida também por razões sanitárias deixou de depender apenas dessas campanhas. Ferver água, armazená-la quente e bebê-la ao longo do dia passou a fazer parte do cotidiano, sendo transmitida dentro das próprias famílias de uma geração para outra.

Garrafas térmicas à venda em uma loja de departamentos na Nanjing Road, em Xangai, em 1967.
Foto: People’s Pictorial (人民画报), via Wikimedia Commons — domínio público.

E a medicina tradicional chinesa?

A medicina tradicional chinesa também ajuda a explicar por que bebidas quentes são vistas de forma positiva no país, embora ela não seja a única origem do costume.

Dentro desse sistema tradicional, alimentos, bebidas e até condições do corpo podem ser associados a propriedades como “quente” e “frio”. A ideia não se refere apenas à temperatura física, mas a uma forma mais ampla de interpretar equilíbrio e funcionamento do organismo.

Por isso, água morna ou quente pode ser considerada mais adequada em determinadas situações, enquanto bebidas muito frias são evitadas por algumas pessoas, especialmente durante doenças, no inverno ou após refeições.

Essas crenças acabaram reforçando culturalmente um hábito que também se espalhou por razões de higiene e saúde pública. A preferência atual por água quente, portanto, não pode ser explicada apenas pela medicina tradicional chinesa, mas ela também ajuda a reforçar culturalmente o costume para muitas pessoas.

Por que muitos chineses ainda preferem água quente hoje?

Hoje, a preferência por água quente já não depende apenas das razões sanitárias que ajudaram a popularizar o hábito no passado. Para muita gente, ela simplesmente se tornou parte da rotina e da ideia de conforto.

Quem cresce bebendo água morna ou quente tende a enxergá-la como algo normal, especialmente em casa, no trabalho ou durante as refeições. O hábito também é reforçado pela facilidade de encontrar água aquecida em diferentes ambientes e pelo uso contínuo de garrafas térmicas.

Isso não significa que bebidas frias sejam raras na China. Refrigerantes, cafés gelados e chás frios fazem parte do cotidiano, sobretudo entre os mais jovens. Ainda assim, água pura continua sendo frequentemente consumida morna ou quente, principalmente por hábito, preferência pessoal e associação com bem-estar.

Também é importante distinguir duas coisas: durante boa parte da história moderna, o incentivo era para beber água fervida, por segurança. Com o tempo, porém, essa prática acabou se misturando à preferência cultural por consumir a água ainda quente ou morna.

Homem servindo água quente de uma garrafa térmica em Tongli, China.
Foto: Jakub Hałun, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Água quente realmente faz melhor para a saúde?

Não há evidência robusta de que beber água quente seja, de forma geral, mais saudável do que beber água em temperatura ambiente. O benefício mais claro está em ferver água que pode estar contaminada: a Organização Mundial da Saúde afirma que levar a água à fervura é suficiente para inativar bactérias, vírus e protozoários causadores de doenças.

A temperatura na hora de beber é outra questão. Água morna pode ser mais agradável para algumas pessoas, mas isso não significa que ela tenha propriedades especiais de cura ou que seja sempre melhor para o organismo.

Na verdade, o excesso de calor pode ser prejudicial. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classificou o consumo de bebidas muito quentes — acima de 65 °C — como provavelmente carcinogênico para humanos, devido à associação com câncer de esôfago.

Por isso, no caso chinês, é importante separar duas ideias: ferver a água pode torná-la microbiologicamente mais segura; bebê-la quente é, sobretudo, uma preferência cultural e cotidiana.

Um hábito que atravessou gerações

A preferência por água quente na China foi sendo construída aos poucos, combinando costumes antigos, crenças tradicionais, preocupações com higiene e campanhas modernas de saúde pública.

Ao longo do século XX, a expansão do acesso à água fervida e o uso de garrafas térmicas ajudaram a transformar essa prática em parte da rotina. Depois de algumas gerações, o que antes também tinha uma função sanitária passou a ser simplesmente um hábito cotidiano.

Por isso, ver alguém carregando uma garrafa térmica ou pedindo água quente na China não é apenas uma curiosidade cultural. É o resultado de uma história em que tradição, saúde pública e vida cotidiana acabaram se misturando.

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